Abraham Lincoln, em 1863, quando assinou a Proclamação de Emancipação deve ter pensado que a marca deixada por sua pena era de fato muito importante. Na verdade, nos momentos antes da cerimônia havia abalado muitas mãos e sentiu que tinha uma mão trêmula e dormente.

O presidente queria deixar um traço de pena preciso e seguro, sabendo que, além de seu nome, com a assinatura manuscrita, deixaria às gerações futuras a importância do gesto e suas emoções. Lincoln, antes de fazer o solene ato, reservou-se o tempo para se preparar para escrever.

Hoje, mais de 150 anos depois, os Estados Unidos da América estão se aproximando de um ponto de viragem epocal: eliminar completamente o ensino de escrita à mão a partir do segundo ano do fundamental, que será substituído com escrita digital de tablet e computador. Na verdade, já são 45 estados que decidiram alinhar-se com o Standard Common Core (núcleo de normas comuns) e eliminar esse ensino das suas escolas.

O debate é tópico no exterior. Aqueles a favor da iniciativa enfatizam que não existem razões válidas, se não a única “nostalgia do papel e caneta” para ensinar as crianças a escrita manual.

Do outro lado neurocientistas e psicólogos parecem ter muitos mais argumentos em favor desta prática, que entre os muitos aspectos positivos iria melhorar a aprendizagem, memória e criatividade.

Das páginas do The New York Times Mary Konnikova rejeitou firmemente a idéia do fim da escrita manual. “Não é só o que nós escrevemos, mas como nós escrevemos.” Assim, a jornalista russo-americana chamou a atenção para a importância deste ensino, explicando que não só as crianças que escrevem com a mão aprendem a ler mais rapidamente, mas também conseguem perceber melhor as informações.

Em apoio da sua tese, a repórter cita uma pesquisa realizada em 2012 pelo psicólogo James Karin da Universidade de Indiana.

No Estudo, um grupo de crianças tinha a tarefa de reproduzir uma letra de três maneiras diferentes: em uma folha branca, em uma página com o contorno da letra já tracejado e na tela de um computador com um teclado.

A subsequente digitalização do cérebro demonstrou que, apenas em casos de escrita à mão, nos cérebros das crianças são ativadas áreas que são estimuladas em adultos durante as atividades de leitura.

O psicólogo Stanislas Dehaene acredita que a atividade cerebral intensa encontrada durante a escrita está intimamente relacionada com a aprendizagem. Ao escrever, na verdade, põe em movimento um circuito neural que leva a assimilar gradualmente o gesto necessário para acompanhar um signo específico.

Quando escrevemos, então, estamos criando um caminho que exige grande concentração e empenho para chegar mais perto do modelo de referência. Apenas a atividade gerada por este circuito, de acordo com o psicólogo francês, tornaria mais fáceis os nossos caminhos de aprendizagem em outras áreas.

Na Universidade da Flórida, na verdade, uma equipe coordenada por Laure Dinehart também encontrou uma forte correlação entre a escrita manual e de aprendizagem e o sucesso da carreira escolar.

Os estudos têm levado os pesquisadores a afirmar que a escrita à mão parece estar ligada à capacidade de gerir as suas emoções e armazenar o trabalho feito.

Os benefícios que a escrita à mão dá a memória estão entre as questões levantadas pelas várias investigações desenvolvidas nesta área.

Em um estudo publicado no The Wall Street Journal, a professora de Psicologia da “University of Washington” Virginia Berninger monitorou a atividade cerebral de um grupo de crianças na atividade de escrita à mão em cursiva e com o teclado. Os resultados mostraram que as duas áreas do cérebro estimuladas durante as duas tarefas eram completamente diferentes.

De acordo com Berninger não só as crianças que escrevem em cursiva pode compor mais palavras, mais rapidamente e com maior estimulação de idéias e pensamentos. Ao analisar a atividade cerebral de crianças com os melhores gráficos, os pesquisadores descobriram durante a produção uma intensa atividade neural nas mesmas áreas do cérebro que são normalmente envolvidos no processo de memórizaçao.

Um estudo feito por um grupo de estudantes da Universidade da Califórnia mostrou que os benefícios para a memória não iria parar depois a idade infantil. Ao monitorar as lições de estudantes universitários, de fato, o grupo de investigação descobriu como tomar notas à mão, em vez de com laptop ou tablet, ajuda a fixar conceitos de uma forma mais sólida e duradoura.

Os detratores da escrita manual, como Morgan Polikoff, professor de educação na Universidade do Sul da Califórnia, colocam a comunidade científica e acadêmica ante a evidência do novo uso do meio pelos nativos digitais, que estão na escrita digital do seu habitat natural, tanto na escola como em comunicações interpessoais.

O uso de um sistema duplo na escrita neste momento se tornaria redundante. Polikoff também explica ao New York Times que até mesmo as comunicações profissionais e pessoais dos adultos é feito através de um teclado e agora a escrita cursiva para os mais jovens tornou-se quase uma língua estrangeira usada para a assinatura.

O avanço da era digital exige profunda reflexão sobre as tradições e costumes que devem ser mantidos e aqueles outros que ao invés precisa deixar para trás para não impedir o progresso da sociedade.

As pesquisas que nós analisamos são apenas uma parte dos estudos que mostram que a escrita à mão não pode ser relegada como uma mera relíquia do passado.

Deixando por um momento a fundamentação científica, em seu livro “The Missing Ink” o escritor Philip Hensher tenta explicar a importância desta prática, colocando em poucas palavras o relacionamento de Charles Dickens com a escrita à mão na redação de seus romances: “O ato de escrever, de compor letras, dá força à história.

NOTAS:

1. “The effects of handwriting experience on functional brain development in pre-literate children”

2. “Handwriting in early childhood education: Current research and future implications”

3. “Educating Students in the Computer Age to Be Multilingual by Hand”

BIBLIOGRAFIA:

– Bounds G., “How Handwriting Trains the Brain”, The Wall Street Journal, October 5, 2010.

– “Emozioni e storia, una doppia firma sulla sopravvivenza del corsivo”, Parer, 4 Novembre, 2014.

– George B., George J., “Why we shouldn’t write off cursive”, Quartz, September 30, 2013.

– Hensher P., “The Missing Ink. The lost art of Handwriting”, Faber and Faber, 2012.

– Konnikova M., “What’s lost as Handwriting Fades” The New York Times, June 4, 2014.

– Soldavini P., “Una scrittura senza fine”, Il Sole 24 Ore, 24 Novembre, 2013.

Artigo original:

http://www.fondazionepatriziopaoletti.org/news/873/la_mano_scrive_il_cervello_ringrazia_.html

Tradução: Silvia Brambilla (Colégio Rainha da Paz – Aracati – CE)